
sábado, 27 de outubro de 2007
Prémio para Gonçalo M. Tavares

sábado, 20 de outubro de 2007
A carta de Reclamação

O museu fecharia às cinco horas,
o que mais tinha de verdadeiro.
Não concordou com o colega.
No seu caso, as imagens enviavam-no
para as diferentes etapas da sua vida.
Recuperava, com as cores e as formas,
da memória. Transitavam de sala
em sala e não sabia explicar-lhe o poder
desses fragmentos de visível. As palavras,
tal como as imagens, eram a penas ocioso
de cada artista, dirigindo a execução da obra.
A visita teria mesmo de ser rápida.
Cinco em ponto Londres, uma semana
de Janeiro com um sol de tela, para quê
perder tempo em museus? No exterior
o verde das árvores contrastava
com o verde das árvores.
"O novo rosto de Isabelle", revista VISÃO
Em Novembro de 2005 a francesa Isabelle Dinoire tornava-se a primeira pessoa a receber um transplante da face, depois de mordida por um cão. Três meses mais tarde o mundo via-a - o rosto ainda inchado, as cicatrizes evidentes, o lábio inferior descaído. Agora, Noelle Chatelet, ex-professora de Comunicação na Sorbonne, irmã do ex-primeiro-ministro DanielJospin (PS) e autora de obras sobre o corpo, lança um livro sobre essa aventura, Le Baiser d'Isabelle (O beijo de Isabel).
Até que ponto lsabelle Dinoire aceita hoje o novo rosto?
Aceita-o perfeitamente. Viveu seis meses sem rosto, sem poder falar ou comer, com um buraco em vez de boca. Hoje há uma parte da cara que lhe é estranha, mas que integrou no seu seu imaginário,no seu psiquismo. Tem um reconhecimento infinito pela dadora e pela família . Sente uma imensa ternura por essa parte do rosto que não lhe pertence. É muito lúcida sobre essa ideia de partilha Sabe que é dupla, mas vive isso serenamente.
E como está ela?
Perfeitamente. Houve pequenas rejeições do transplante, mas sempre controladas.
Toma uma medicação muito forte, o que a fatiga, mas o rosto está magnífico, apesar de as cicatrizes não terem desaparecido completamente.
A dadora tinha-se suicidado. Que relação desenvolveu lsabelle com ela, uma vez que também tomara barbitúricos?
A certa altura ela nem queria que lhe tocassem na cara, para não estragar o transplante, e está sempre a ver se tem vermelhidões. Faz parte do agradecimento. Acha que tem de viver pelas duas. Deve-lhe isso, a assim como à equipa médica, que se tornou a sua segunda família (e eu entrevistei os 45 envolvidos, além de lsabelle, durante quatro meses). Ela vê a dadora um pouco como sua irmã. Desenvolveu laços muito fortes com ela, porque acha que viveram coisas muito semelhantes.
Que laços tem com a família da dadora?
Nenhuns. A lei francesa proíbe os transplantados de entrarem em contacto com a família dos dadores, e eles também não a procuraram.
Ela diz que pode falar, sorrir, comer. Só não consegue dar um beijo…
Osa médicos tinham avisado que não sabiam se ela conseguiria articular de novo o músculo orbicular, o do contorno da boca, que permite aos recém nascidos mamar. Ainda não readquiriu totalmente, mas faz muitos exercícios. Daí que a equipa médica espere esse beijo com muita emoção. Só então se apropriará totalmente do rosto do outro. Será a apoteose do transplante. É uma bela história porque, para ser bem sucedida, terá de acabar como um conto de fadas.
Você já conheceu outros tranbplantados, como um que recebeu as mãos. Que semelhanças há com este caso?
Isabelle recusa a comparação. Diz que quem não gosta das mãos pode escondê-las no bolso, mas a cara não. Achei, no entanto, algumas semelhanças entre todos, como o o reconhecimento pelo dador e pela família. Mas como os órgãos visíveis desenvolve-se uma espécie de fantasma, de medos, de estranheza e há o olhar dos outros. É curioso que os doentes vivem melhor do que os outros, que pensam sempre «bem, as mãos não são dele».
Como a mudou a operação?
Para ela, o transplante foi uma espécie de viagem iniciática. É outra Isabelle, não por ter outro rosto, mas por sentir que é útil. Apesar dos exames dolorosos que faz, dá-lhe certo orgulho saber que fez avançar a ciência e pode ajudar outros. Voltou a ter grande alegria de viver.
Já mudou a foto no B.I.?
Não. Isso assusta-a um pouco. Se mudar a foto, terá definitivamente partido. Gostava do rosto anterior, apesar de também gostar deste. Tem muito poucas fotos antigas, mas não sente necessidade de as ver. Está muito serena em relação a isso.
Ela foi atacada pela cadela. Porque comprou outro cão?
Ficou tristíssima quando soube que tinham abatido a cadela. Sabe que ela não lhe queria fazer mal. Mordeu-a a tentar salvá-la, pois estava inanimada. Depois, quando voltou, sentiu necessidade de uma presença animal. Chamou ao cão Anjo e diz que foi o único ser que a tomou por uma pessoa normal quando estava desfigurada.
in revista Visão, nº 763, 18 de Outubro de 2007
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
A falta de objectividade jornalística

Exausto, o valente homem vê aproximar-se outro homem, que corria na sua direcção. Chegado a sua beira ele diz:
"CORAJOSO PORTUENSE SALVA CRIANÇA DE MORTE CERTA."
No dia seguinte, a primeira página do jornal era:
"MOURO MATA SEM PIEDADE CÃO DE FAMÍLIA."
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
A minha força de viver!, Susana Lima Pereira

sexta-feira, 5 de outubro de 2007
"O senhor Jacobini", por Sara

O senhor Gustavo, por Joana, Rute, Xana e Bruna Barbosa

"A música" de Gonçalo M. Tavares

A MÚSICA
Ao veneno chamam sinfonia.
O senhor André, por Bruna Martins e Liliana Patrícia

O senhor João, por Andreia Patrícia

O senhor António, por Carla e Ana

"O cinema" de Gonçalo M. Tavares

"A Chávena e a mão" de Gonçalo M. Tavares

A partir de algumas microrrativas da série O bairro, de Gonçalo M. Tavares, da qual fazem parte personagens desconcertantes como O Senhor Valéry, O Senhor Henri, O Senhor Juarroz, O Senhor Calvino, O Senhor Kraus e O Senhor Walser construímos os nossos próprios "senhores".
A Chávena e a mão
O senhor Juarroz hesitava em pegar na sua chávena de café porque não conseguia deixar de pensar que não são as mãos que pegam nos objectos, mas sim os objectos que pegam nas mãos. E tal repugnava-o, pois não aceitava que uma simples chávena lhe agarrasse a mão (como o noivo impetuoso agarra nos dedos tímidos da noiva).
Por isso o senhor Juarroz em vez de agarrar na chávena ficava longos minutos a olhar para ela, de modo agressivo.
Mais tarde queixava-se do café frio.
in Tavares, Gonçalo M., O Senhor Juarroz, Ed. Caminho, 2004